O fim da escala de trabalho 6×1 poderá elevar os custos de produção da indústria de carnes e pressionar os preços dos alimentos no Brasil a partir de janeiro de 2027. O alerta é de Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), que representa os setores de aves e suínos.

Santin afirmou que as mudanças na jornada de trabalho podem afetar a capacidade produtiva de empresas que já enfrentam dificuldades para contratar trabalhadores. Segundo ele, parte dos custos adicionais poderá ser repassada aos consumidores.
A entidade estima que empresas que não conseguirem recompor suas equipes ou adaptar as operações poderão registrar uma redução de até 5% na capacidade produtiva. O setor já enfrenta mais de 20 mil vagas de trabalho em aberto, segundo o dirigente.
Mudança na jornada começa em dezembro
A Emenda Constitucional nº 141, promulgada em 16 de outubro de 2026, estabelece a substituição da escala 6×1 pelo modelo 5×2, com dois dias de descanso por semana. A implementação começa em 15 de dezembro, conforme o período de transição previsto na nova regra.
A jornada semanal máxima, inicialmente de 44 horas, será reduzida para 42 horas e, posteriormente, chegará a 40 horas ao longo de um período de transição de 14 meses, sem redução salarial.
Para empresas que dependem de funcionamento contínuo, a mudança exigirá reorganização de turnos, contratação de novos funcionários ou utilização de horas extras para manter o volume de produção.
No setor de proteína animal, a adaptação pode ser especialmente complexa devido à necessidade de manter as operações dos frigoríficos, respeitando exigências sanitárias e as condições adequadas de manejo dos animais.
Falta de mão de obra preocupa frigoríficos
Segundo a ABPA, a escassez de trabalhadores já representa um desafio para a indústria de aves e suínos. Algumas empresas têm buscado profissionais em outras regiões brasileiras e recorrido à contratação de imigrantes para preencher vagas.
Com a redução das horas trabalhadas por funcionário, a necessidade de ampliar as equipes pode aumentar justamente em um momento no qual o setor encontra dificuldades para contratar.
Caso não consigam recompor o quadro de pessoal, determinadas unidades poderão reduzir o ritmo das linhas de produção. A estimativa de queda de até 5% na capacidade produtiva, porém, refere-se às empresas que não conseguirem compensar a redução da jornada, e não necessariamente ao conjunto de toda a indústria brasileira.
Outra alternativa é o pagamento de horas extras, que permitiria preservar parte da produção, mas aumentaria as despesas operacionais.
Custos adicionais podem chegar ao consumidor
A previsão da associação é que os efeitos da mudança comecem a aparecer nos preços praticados no varejo a partir de janeiro de 2027.
O impacto dependerá da capacidade de cada empresa para reorganizar os turnos, contratar funcionários e absorver os novos custos. Se houver redução da oferta de determinados produtos ou aumento das despesas de produção, parte dessa pressão poderá chegar às prateleiras dos supermercados.
A ABPA, entretanto, não apresentou uma estimativa consolidada de quanto a mudança poderá acrescentar ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial da inflação brasileira.
Portanto, a previsão de pressão inflacionária deve ser entendida como uma avaliação do setor produtivo, e não como confirmação de uma alta já quantificada nos preços de carnes ou na inflação geral.
Setor afirma que cumprirá a nova legislação
Em manifestação divulgada após a aprovação da proposta pelo Senado, a ABPA afirmou que o setor cumprirá as novas regras trabalhistas, mas demonstrou preocupação com os possíveis efeitos sobre a produção, a oferta de alimentos e os custos da indústria.
A entidade defende que as empresas tenham condições de se adaptar à nova jornada sem comprometer a continuidade das operações. O tema também envolve o planejamento das contratações e a reorganização das escalas de trabalho.
A dificuldade é particularmente relevante para atividades que não podem ser interrompidas sem consequências operacionais, como o processamento de animais nos frigoríficos.
Efeito sobre a inflação ainda depende da adaptação das empresas
A possível alta dos preços dependerá de como a indústria responderá às novas exigências. Empresas que conseguirem ampliar suas equipes e reorganizar os turnos poderão reduzir os efeitos sobre os custos. Outras poderão enfrentar dificuldades para manter a produtividade nos níveis atuais.
A mudança também ocorre em um contexto no qual o preço dos alimentos depende de diversos fatores, como custos de ração, energia, transporte, condições de oferta e demanda interna e externa.
A avaliação da ABPA coloca a adaptação do mercado de trabalho entre os fatores que merecem acompanhamento nos próximos meses. O impacto efetivo sobre o consumidor deverá ficar mais claro à medida que as novas regras entrarem em vigor e as empresas divulgarem seus resultados operacionais.

